sexta-feira, 25 de abril de 2008

FILOSOFIA DE BAR II - À JUKEBOX E SUA GARRAFA DE VODCA (Cel Bentin)


Às vezes
nos protegemos da consciência
que ignora o próximo turbilhão;
aquele que irá encher
as duas metades da sede,
molhar o copo da história
ainda não vivida da gente.

Embriagando a fé de si
na possível ressaca do amanhã,
envolvemos ressaca e copo
no papel-espelho da memória que
– ora mais cedo, ora mais tarde –
embaralha tudo em um tempo
aparentemente reconhecido,
ainda que não seja passado.

A partir disso, temos a impressão
de já termos dado conta do futuro:
nós já o traduzimos,
já o entornamos gargalo vivo abaixo;
imaginamos desarmada a surpresa
do seu premeditado despreparo.
(O amanhã sempre a carrega.)

Assim, desalinhados de tempo, seguimos.

Tentando doutrinar nossa pretensa
não-saciedade de futuros.

Querendo prever a pedra sem jeito
no caminho.

Dissolvendo o presente silêncio
no fundo da melodia escondida
entre os cubos do copo de gelo.

Enquanto seguem, ainda em falta,
"russas e mais russas-e-meias"
sem sossegar a meia-dose
do anseio incompleto das horas.

Tudo porque, densa, ausência não é vazio.

Ela é companhia acesa e avulsa
no momento que toma conta da mesa.
Instante em que tudo é um só dejavú
de sentido, lembrança e beleza.

E então que descobrimos: não estamos sós.
Somos muitos. E imprevisíveis.
Embriagados. Insustentáveis.

Sim. A boemia convida.
Em paradoxo de peso e leveza.

Um comentário:

baralirismo.blogspot.com disse...

A Filosofia encontra nossos goles de chopp, cerveja e vodka. Nosso coração salta pela boca quando arrotamos poesia. Parabéns Meu poeta amigo.