
Às vezes
nos protegemos da consciência
que ignora o próximo turbilhão;
aquele que irá encher
as duas metades da sede,
molhar o copo da história
ainda não vivida da gente.
Embriagando a fé de si
na possível ressaca do amanhã,
envolvemos ressaca e copo
no papel-espelho da memória que
– ora mais cedo, ora mais tarde –
embaralha tudo em um tempo
aparentemente reconhecido,
ainda que não seja passado.
A partir disso, temos a impressão
de já termos dado conta do futuro:
nós já o traduzimos,
já o entornamos gargalo vivo abaixo;
imaginamos desarmada a surpresa
do seu premeditado despreparo.
(O amanhã sempre a carrega.)
Assim, desalinhados de tempo, seguimos.
Tentando doutrinar nossa pretensa
não-saciedade de futuros.
Querendo prever a pedra sem jeito
no caminho.
Dissolvendo o presente silêncio
no fundo da melodia escondida
entre os cubos do copo de gelo.
Enquanto seguem, ainda em falta,
"russas e mais russas-e-meias"
sem sossegar a meia-dose
do anseio incompleto das horas.
Tudo porque, densa, ausência não é vazio.
Ela é companhia acesa e avulsa
no momento que toma conta da mesa.
Instante em que tudo é um só dejavú
de sentido, lembrança e beleza.
E então que descobrimos: não estamos sós.
Somos muitos. E imprevisíveis.
Embriagados. Insustentáveis.
Sim. A boemia convida.
Em paradoxo de peso e leveza.
Um comentário:
A Filosofia encontra nossos goles de chopp, cerveja e vodka. Nosso coração salta pela boca quando arrotamos poesia. Parabéns Meu poeta amigo.
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